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    Avanços na cardiologia fetal

    Avanços na cardiologia fetal


    Novas tecnologias proporcionam às crianças cardiopatas tratamentos menos agressivos e com melhor qualidade de vida

    A evolução do diagnóstico fetal e a aplicação de procedimentos híbridos possibilitam um aumento na sobrevida desse grupo especial de pacientes

    A evolução das técnicas e consequentemente o aumento da expectativa de vida dos pacientes com cardiopatias congênitas fez surgir um novo tipo de paciente, conhecido como GUCH (Grown Up Congenital Heart). São pacientes que foram operados ainda neonatos e chegaram a idade adulta sem problemas ou descobriram a cardiopatia congênita já na fase adulta. Os GUCH representam hoje um grande desafio na área de cardiologia, pois não são mais considerados pacientes pediátricos e muitos deles ainda precisam passar por algum procedimento corretivo na fase adulta. A expectativa de vida aumentou tanto que ainda não existe parâmetros para enquadrar esses pacientes dentro de uma conduta específica de tratamento.

    A conscientização dos pais em relação à importância do diagnóstico precoce das anomalias cardíacas faz toda diferença para o êxito do tratamento. Para a Dra. Simone Pedra, cardiologista fetal e coordenadora da Unidade Fetal HCor, a maior procura por diagnósticos mais completos se deve a preocupação dos pais e dos médicos em identificar possíveis problemas cardíacos ainda na gestação. “O acompanhamento e o tratamento de um bebê cardiopata ainda na gestação é primordial para a saúde do feto, por isso exames cardiológicos mais específicos auxiliam a equipe médica a decidir a melhor forma de tratamento”, afirma a cardiologista.

    Cerca de 2% de todos os bebês nascidos são portadores de malformações congênitas, sendo as cardiopatias as mais frequentes e graves. As patologias do coração têm incidência infantil significativa, atingindo de 5 a 8 crianças a cada 1000 nascidas. Cerca de 50% das cardiopatias congênitas são tão graves que podem trazer sintomas ainda dentro do útero ou imediatamente após o nascimento, com a necessidade de tratamento específico nas primeiras horas ou dias de vida. O conhecimento pré-natal destas anomalias favorece imensamente a evolução clínica destes bebês, pois permite uma programação do local ideal de nascimento, da idade gestacional e via de parto apropriada.

    “Atualmente já é possível tratar ou melhorar 70% das cardiopatias congênitas, principalmente aquelas de menor gravidade, com técnicas de cateterismo. Em casos mais graves a cirurgia se faz necessária e nos mais complexos optamos pelos procedimentos híbridos, em que o cirurgião e o intervencionista trabalham juntos”, ressalta o Dr. Carlos Pedra, intervencionista pediátrico do HCor.

    O ecocardiograma passou a ser o principal recurso diagnóstico dos casos de cardiopatias congênitas – anteriormente o estetoscópio tinha esse papel. Além disto, e ecocardiograma passou também a ser aplicado para diagnosticar as malformações cardíacas ainda na vida fetal. E, mais recentemente, os procedimentos híbridos, que mesclam a utilização do cateterismo e da cirurgia cardíaca, também despontaram como uma alternativa promissora. “Estamos vivendo uma fase bastante animadora na cardiopediatria. Graças à evolução dos tratamentos e do diagnóstico fetal, crianças que passaram por cirurgias de alta complexidade décadas atrás estão tendo uma qualidade de vida cada vez melhor e hoje são adultos saudáveis”, esclarece Marcelo Jatene, cirurgião cardíaco pediátrico do HCor.


    Trigêmeos de alta complexidade

    Elaine Viana descobriu na nona semana de gestação que seria mãe de trigêmeos. Treze semanas depois, um novo exame de imagens revelou que dois fetos dividiam a mesma placenta, mas com um desequilíbrio entre as circulações sanguíneas, ou seja, o sangue com nutrientes não chegava de maneira igualitária para os dois e um acabava “doando” para o outro. Esse problema é conhecido como síndrome de transfusão feto-fetal.

    Por meio de uma cirurgia intra-uterina realizada no HCor pelo Dr. Fábio Peralta, considerado um dos maiores especialistas do país nessa técnica, foi feita a correção do fluxo sanguíneo. O sucesso do procedimento, porém, não impediu que o bebê doador, Sarah, nascesse com 1,3 kg e com estenose pulmonar (defeito na válvula pulmonar que obstrui o fluxo sanguíneo para os pulmões vindo do ventrículo direito do coração) e tivesse que passar ainda por outro procedimento.

    “Após a transferência para o Hospital do Coração, a Sarah passou por um cateterismo para dilatação da valva pulmonar e colocação de stent no canal arterial que corrigiu o problema de pouco fluxo de sangue para os pulmões. Ficou 5 dias na UTI e depois foi transferida novamente para a maternidade, onde ficou mais 35 dias em recuperação até receber alta médica”, conta a mãe. Passados 4 meses do nascimento das trigêmeas Lívia, Sophia e Sarah, Elaine revela que ainda perde muitas noites de sono, só que agora amamentando as três filhas.

    “Todo esse trabalho de sucesso se deve ao comprometimento e paixão da equipe multiprofissional da cardiopediatria HCor. São áreas distintas como cirurgiões, intervencionistas, clínicos, enfermeiros, fisiatras, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais trabalhando com total envolvimento em prol desses pacientes tão especiais para nós”, ressalta Dr. Ieda Jatene, cardiologista e responsável pela Cardiopediatria HCor.


    Procedimento Híbrido

    Na área cirúrgica, a grande sensação na medicina mundial são os procedimentos híbridos, que começaram a ser feitos nos Estados Unidos e Europa há cerca de 11 anos e no Brasil há pouco mais de 4 anos. O HCor é um dos poucos centros médicos do país que faz esse tipo de procedimento e referência na América Latina. “Na cardiopatia congênita o procedimento híbrido é indicado para casos mais graves como, por exemplo, a síndrome da hipoplasia do coração esquerdo, caracterizada por uma atrofia do lado esquerdo do coração. O procedimento, que é realizado pelo cirurgião cardíaco e intervencionista pediátrico, tem como objetivo unir a expertise de duas áreas para oferecer um tratamento menos agressivo e com recuperação mais rápida”, explica o Dr. Marcelo Jatene.

    O procedimento para casos de hipoplasia do coração esquerdo é realizado com a abertura do tórax pelo cirurgião cardíaco para a colocação de uma espécie de bandagem em volta das artérias pulmonares para restringir o fluxo de sangue para o pulmão, seguido pelo implante de stent no canal arterial pelo intervencionista pediátrico. “A vantagem desse procedimento, no qual o HCor é considerado referência entre os hospitais do país, é que, além de proporcionar uma rápida recuperação da criança, o pós-operatório é menos traumático e com uma taxa de sobrevida desses pequenos pacientes em torno de 80%”, esclarece Dra. Simone Pedra.

    Sem tratamento, 95% dos bebês com a síndrome morrem no primeiro mês de vida. O tratamento significa três cirurgias cardíacas durante os primeiros dois anos de vida ou um transplante cardíaco. Devido aos grandes avanços na cirurgia, muitas crianças que nascem com a doença agora estão tendo bons resultados.

    Além da síndrome de hipoplasia do coração esquerdo, o HCor realiza outros tipos de procedimentos híbridos para tratamento de cardiopatias congênitas. Entre eles o fechamento de comunicações interventriculares musculares amplas (espécie de abertura no septo que separa o ventrículo direito do ventrículo esquerdo) e de comunicações interatriais (abertura no septo que separa os átrios) em bebês de baixo peso e muito sintomáticos, com implante de próteses. Esses procedimentos híbridos são realizados com o coração da criança batendo, sem a necessidade da assistência da circulação extracorpórea (desvio do sangue para uma máquina que realiza todo o trabalho do coração e do pulmão enquanto o cirurgião faz os reparos necessários no órgão).

    “Outro avanço que podemos destacar é a utilização da angiografia (injeção de contraste nos vasos sanguíneos com visualização com aparelhos de raio X) e do ecocardiograma intraoperatórios, que nos possibilitam diagnosticar algum tipo de defeito residual pós-operatório imediatamente após o término das cirurgias. Qualquer problema pode ser corrigido no mesmo instante, evitando diagnósticos tardios, agravamentos da situação clínica e reoperação desnecessária”, acrescenta o Dr. Carlos Pedra.


    A importância do diagnóstico fetal nos primeiros meses de gestação

    As cardiopatias congênitas podem ser detectadas ainda na vida fetal. Durante a gestação alguns exames facilitam a detecção da doença. Os exames de ultra-som morfológico realizados rotineiramente nos primeiro e segundo trimestres gestacionais fazem o rastreamento da má formação no coração da criança. Quando há a suspeita de alguma anormalidade é realizado então um ecocardiograma do coração do feto, que permite avaliar e detectar detalhadamente anormalidades estruturais e da função cardíaca.

    Considerada uma cardiopatia grave e fatal, a síndrome da hipoplasia do coração esquerdo ao ser detectada em tempo hábil, durante o ecocardiograma fetal, as chances de sobrevida da criança são de 80%, quando diagnosticadas precocemente.


    Herança Genética

    Um dos fatores de risco para o desenvolvimento da cardiopatia congênita é a herança genética. Pais e mães portadores de cardiopatias congênitas apresentam uma chance duas vezes maior de gerar um bebê cardiopata. “O mesmo ocorre quando o casal já gerou um bebê com malformação cardíaca. Algumas cardiopatias, em particular, têm uma chance de recorrência ainda maior, chegando até 10% em gestações subsequentes”, ressalta Dra. Simone.

    Não há formas de prevenir a doença, porém, algumas mudanças comportamentais podem ajudar para o bom desenvolvimento do bebê. Antes de engravidar, a mulher deve procurar um médico para ver se seu estado de saúde está bem e iniciar a ingestão diária de uma vitamina chamada “ácido fólico”, que deve ser receitada pelo obstetra. “A deficiência dessa vitamina pode ser um fator desencadeador de malformações cardíacas e do sistema nervoso central do feto”, destaca a cardiologista.

    Além do acompanhamento médico, a grávida deve adotar uma alimentação saudável, abolir o fumo, as bebidas alcoólicas e o consumo de medicamentos sem o conhecimento do seu especialista.


    A Unidade Fetal do HCor

    Em janeiro de 2009 o Hospital do Coração, referência no atendimento cardiológico, inaugurou a Unidade Fetal HCor. Há aproximadamente 30 anos atuando na área de cardiologia pediátrica, a unidade foi criada com o objetivo de oferecer o que há de mais moderno no diagnóstico e tratamento precoce de cardiopatias congênitas graves.

    Com uma equipe altamente especializada, formada por renomados profissionais da área, a Unidade Fetal do HCor conta com o suporte de aparelhos altamente sofisticados e de ponta para o atendimento dos seus pacientes. Depois de constatada a anomalia de alta gravidade o parto é programado e realizado no próprio HCor, com o acompanhamento da equipe de obstetrícia especializada em gestantes de alto risco. Imediatamente após o nascimento, o bebê é encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica onde receberá os medicamentos necessários e será programada a terapêutica específica seja ela por cateterismo cardíaco terapêutico ou por cirurgia cardíaca.

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