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    Economista que recebeu coração transplantado se torna triatleta

    Economista que recebeu coração transplantado se torna triatleta

    Economista que recebeu coração transplantado se torna triatleta

    “Eu nasci com um problema no coração. Com 20 dias eu estava no CTI porque eu não tinha força para mamar. Não dava para fazer tudo que as outras crianças faziam”, afirma a economista Patrícia Fonseca, 32, transplantada há dois anos.

    Enquanto esperava internada por um coração, a economista colocava bilhetinhos amarelos na parede do CTI (Centro de Tratamento Intensivo) com seus desejos. O principal era “coração de atleta”.

    Segundo Carlos Hossri, responsável pelo serviço de reabilitação cardiopulmonar do HCor (Hospital do Coração, em São Paulo), o caso de Patrícia é insólito, pela velocidade e forma da recuperação.

    A economista – que ganhou um coração novo exatamente no dia de seu aniversário de 30 anos– conta que a expectativa é que ela ficasse 15 dias no CTI após a operação; ficou cinco, sendo que no terceiro já estava andando.

    Logo em seguida, começou a reabilitação com auxílio de exercícios. “Foi emocionante a primeira vez que aumentaram a velocidade na esteira para eu correr. Eu chorei porque nunca tinha corrido na vida.”

    Um ano depois, diz Hossri, ela tinha atingido 100% da capacidade cardíaca.

    Sim, o caso de Patrícia não é o padrão entre pessoas com problemas cardíacos e transplantados, mas o cardiologista do HCor afirma que ainda há muitos mitos em relação a esses pacientes e a possibilidade e necessidade de atividade física.

    “Médicos têm medo de encaminhar para exercício porque na faculdade não nos ensinam fisiologia do exercício, mas, sim, do repouso”, diz Hossri. “Uma coisa precisa ficar na cabeça do cardiopata: o risco de um evento fazendo exercício é muito menor que o benefício do exercício físico constante, principalmente através de programas estruturados.”

    No caso de pessoas transplantadas, pela imunossupressão provocada pelos medicamentos contra a rejeição do novo órgão, os cuidados são um poucos maiores, mas nada que impeça uma prática de exercícios dosada, que respeite os limites da pessoa.

    “Com a reabilitação nos transplantados, melhoramos de forma significativa os fatores de risco para problemas cardíacos e podemos dizer também que conseguimos melhorar a sobrevida [dados nesse campo, contudo, ainda são limitados]”, diz Hossri, segundo o qual há evolução mais rápida de doenças cardiovasculares em transplantados.

    O cardiologista afirma que, logo após o transplante, ainda no CTI, é importante que já se iniciem atividades de fisioterapia para desenvolvimento de força nos músculos, com possibilidade até mesmo de se ter uma bicicleta ergométrica no leito, fatores que estimulam o organismo”. Na sequência, devem ser incentivadas, na medida do possível, caminhadas dentro do quarto e pelos corredores do hospital.

    O acompanhamento e manutenção focados na reabilitação devem seguir por, no mínimo, um ano.

    Esse foi exatamente o tempo que Patrícia levou para começar a correr, a ponto de superar o próprio fisioterapeuta que acompanhava o treinamento. Mais seis meses e ela já estava participando de uma corrida de rua.

    “Aos 30 anos eu rejuvenesci. Uma coisa meio Benjamin Button [refere-se ao filme ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, no qual um homem nasce velho e fica jovem com o passar do tempo]”, afirma Patrícia.

    Os bilhetinhos amarelos foram quase proféticos. Patrícia se tornou uma triatleta. “Em junho eu fui para as Olimpíadas dos Transplantados, que eu nem sabia que existiam. Ninguém sabe. É o ápice do transplante”, diz, rindo, sobre ter sido a primeira brasileira com transplante de coração a participar do evento.

    25 ANOS

    “É difícil esquecer o transplante. Foi no dia 23 de agosto de 1992”, diz Luiz Gustavo de Oliveira, 59. Na infância, o aposentado teve uma febre reumática (sequela de infecção que não foi bem tratada) que comprometeu as válvulas mitral e aórtica.

    Edileide Correia, chefe de miocardiopatia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, afirma que as duas cirurgias para substituição das válvulas e o acometimento do músculo cardíaco levaram à necessidade, há 25 anos, de um transplante em Luiz.

    Faltava ar para tudo, até para conversar, conta o aposentado. “Eu era muito fã do Ayrton Senna. Eu quase morri de emoção uma vez em que ele estava correndo aqui em Interlagos com o Prost. Tive que desligar a televisão.”

    Até mesmo a participação na vida familiar ficou comprometida. Pela condição cardíaca e por não poder fazer muito esforço, Luiz não conseguia nem mesmo carregar seu filho direito.

    “A gente não sabia nada desse negócio de transplante. O que ia fazer, falar para alguém morrer para receber um coração?”, diz o aposentado.

    Para Luiz e Patrícia, quando se fala em transplantes é essencial falar sobre a outra ponta da cadeia, os doadores. “O doador não salva só o paciente para quem ele doa, salva todas as pessoas que amam quem ele salvou”, diz Patrícia.

    “Eu vivi a doação de órgãos dos dois lados, porque minha mãe morreu e nós autorizamos a doação”, diz a economista. “Você pode ser o herói daquela vida.”

    Fonte: Folha de S. Paulo

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