Prova de Resistência

A história de superação de Patrícia Fonseca, paciente que enfrentou um transplante cardíaco aos 30 anos e hoje brilha como triatleta em competições internacionais

Patrícia Fonseca

A trajetória da economista Patrícia Fonseca renderia um emocionante longa-metragem. O roteiro que permeia sua batalha pela vida tem capítulos que remetem ao filme do cineasta David Fincher, O Curioso Caso de Benjamin Button. Na trama, há uma dramática inversão do ciclo da vida e o personagem central, Benjamin, nasce idoso e doente. Apesar de ninguém acreditar em sua sobrevivência, ele, a cada ano, rejuvenesce.

Na vida real, Patrícia também enfrentou prognósticos pouco animadores desde o seu nascimento, mas conseguiu se fortalecer, a cada episódio. Diagnosticada, nos primeiros dias de vida, com uma grave cardiopatia congênitaque enfraquece o músculo cardíaco (miocardiopatia dilatada), suas perspectivas eram bastante limitadas. Seu coração nasceu “cansado”.“Disseram que eu não completaria um ano. E eu completei. Depois, estimaram que eu não passaria dos 3 anos de idade”, conta. E assim se passaram 32 anos de uma jornada pontuada por desafios como a superação de um quadro agudo de insuficiência cardíaca, transplante de coração e, mais recentemente, a consagração como atleta de alta performance, ou melhor, triatleta.

Os remédios administrados ajudaram a melhorar o cansaço e a falta de ar, sintomas comuns em pacientes com insuficiência cardíaca, além de diminuir, consideravelmente, as complicações da doença

Patrícia Fonseca alcança vitória no XXI world transplant game 2017
Já na infância, Patrícia não conseguia realizar tarefas triviais do dia a dia como trocar de roupa, levantar da cama, praticar exercícios e até mesmo falar era difícil. Essas dificuldades permearam toda sua adolescência e, aos 20 anos, o coração dava sinais de que precisaria de um transplante. As limitações físicas se intensificaram com o passar dos anos e ela teve de parar de estudar, de trabalhar e mal conseguia sair de casa.

A árdua batalha para manter seu coração ativo por meio de medicamentos se arrastou por mais nove anos quando, em 2014, a doença atingiu seu ponto mais crítico e Patrícia foi internada em estado grave no HCor. Surgia então outro obstáculo a ser superado antes mesmo da opção de um transplante cardíaco. Os pulmões, sobrecarregados por anos de insuficiência cardíaca, não suportariam o procedimento. Ali, vinha à tona um novo diagnóstico: hipertensão pulmonar. “É uma complicação da insuficiência cardíaca. Há um aumento da pressão do sangue dentro do pulmão por não ser “esvaziado” suficientemente. Mais do que um problema para o paciente, é um fator limitador para o transplante”, afirma o Dr. Victor Issa, cardiologista do HCor que acompanhou toda a trajetória de Patrícia desde que ela ingressou no hospital.

No HCor, ela foi acompanhada por uma equipe especializada neste tipo de tratamento. “A princípio, o tratamento da Patrícia foi unicamente medicamentoso. Os remédios administrados ajudaram a melhorar o cansaço e a falta de ar, sintomas comuns em pacientes com insuficiência cardíaca, quando o coração tem dificuldade para bombear o sangue adequadamente, além de diminuir, consideravelmente, as complicações da doença que acomete cerca de 4 milhões de brasileiros”, explica o cardiologista Dr. Félix Ramires, coordenador do Programa de Cuidados Clínicos para Pacientes com IC do HCor. Referência no país e com certificação internacional da Joint Commission Internacional, este programa, iniciado em 2011, já atendeu mais de 600 pacientes e registrou uma queda de cerca de 30% na taxa de mortalidade.

Patrícia aguenta firme. O coração está chegando!

Em março de 2015, ela entrou na fila do sistema nacional de transplantes. A principal preocupação dos médicos durante a internação de Patrícia era controlar a hipertensão enquanto aguardavam o surgimento de um doador. Isso porque o organismo se adapta àquela condição e, em caso de transplante, as chances de o novo coração não funcionar seriam grandes. Iniciou-se então uma análise detalhada do caso pela equipe médica para verificar o grau de comprometimento dos pulmões. O resultado não podia ser mais animador. O quadro hipertensivo era completamente reversível e poderia ser controlado com medicamentos. O tratamento foi efetivo e o sistema respiratório de Patrícia se estabilizou.

Um presente que pulsa

Serviço de Reabilitação Cardiopulmonar
Do box 9 da UTI cardiológica, localizado no 6º andar do HCor, começavam, finalmente, os preparativos para o transplante. Primeiro, um toque especial na decoração. Patrícia registrou seus objetivos por meio de mensagens curtas em bilhetes fixados na parede do quarto. Seus desejos? Nadar. Dançar. Ir a festas. Correr no parque. Viver muito. Coração de atleta. Ser uma atleta era seu sonho desde a infância. No total, foram três meses internada à espera de um novo coração. “Eu consegui esperar com força e de cabeça erguida, porque tive muitas pessoas ao meu lado cuidando de minha saúde que fizeram toda a diferença. Eles me ensinaram o verdadeiro significado de humanização”, afirma.

Tudo aconteceu, exatamente, no dia de seu aniversário, 29 de julho. No mesmo dia em que completou 30 anos, em 2015, Patrícia recebeu um novo coração, depois de uma vida inteira de privações e muita expectativa. “Logo cedo a enfermeira entrou no quarto e passou uma ligação para mim. Pensei, quem está querendo me dar parabéns tão cedo? Quando atendi, ouvi: Patrícia, aguenta firme. O coração está chegando! Foi o presente mais lindo que eu podia ganhar”, relembra emocionada a ligação que recebeu do Dr. Issa.

“A situação da Patrícia era considerada muito grave, com condições clínicas muito ruins. Por conta disso, ela foi classificada como paciente prioritária”, explica o Dr. Paulo Pêgo Fernandes, cirurgião cardíaco do HCor. Os médicos responsáveis pela cirurgia de Patrícia viajaram alguns quilômetros para pegar o tão esperado coração. Lá, testes de compatibilidade imunológica foram realizados para certificar que era um coração saudável e próprio para o transplante. Da primeira ligação à chegada ao HCor, as últimas seis horas de espera foram de muita comemoração. Quando o coração enfim chegou, o hospital estava em festa e a equipe médica toda mobilizada para iniciar o procedimento.

O amor pela vida, o querer fazer, trabalha muito a favor dela. Há várias formas de encarar a mesma situação. E a Patrícia foi extremamente positiva

Ao entrar no Centro Cirúrgico, uma paradinha para um rápido discurso: “Quando eu passei pela porta do Centro Cirúrgico, eu falei: vocês nunca viram alguém mais feliz passar por essa porta”, lembra Patrícia.

A cirurgia foi um sucesso. “Tínhamos um coração em perfeitas condições e uma paciente extremamente positiva à espera dele. Tudo isso foram pontos favoráveis”, comenta Dr. Pêgo. “O amor pela vida, o querer fazer, trabalha muito a favor dela. Há várias formas de encarar a mesma situação. E a Patrícia foi extremamente positiva”.

Coração de atleta

Patrícia começou a treinar na Reabilitação Cardiopulmonar do HCor antes mesmo do transplante. Por isso, três dias depois do procedimento ela já conseguiu ficar em pé. Oito dias depois, começou a caminhar. E de passinho em passinho a futura atleta foi transformando seu sonho em realidade. “O ritmo de recuperação superou nossas expectativas. Ela começou com caminhadas curtas e leves na esteira. Em um ano, já estava correndo”, conta o ardiologista Dr. Carlos Hossri, coordenador do Serviço de Reabilitação Cardiopulmonar do HCor, que conduziu um estudo com relato de casos que evidencia a eficácia da reabilitação cardiopulmonar em pacientes transplantados. “Registramos um aumento de 20% a 30% na capacidade funcional e aeróbica desses pacientes, além de uma taxa de sobrevida de 77%”, explica.

Com a supervisão de médicos e fisioterapeutas, Patrícia intensificou os exercícios, que foram direcionados aos seus objetivos, aqueles escritos em bilhetinhos antes da cirurgia. “A recuperação foi tão surpreendente que Patrícia não só corre, como nada e anda de bicicleta com intensidade. Ela virou uma triatleta”, orgulha-se Dr. Hossri. Treinando com muita disciplina e sempre em busca de novas superações, a paciente destemida decidiu que era hora de algo muito maior. Arrumou as malas e partiu rumo a Málaga, na Espanha, para participar da Olimpíada Mundial dos Transplantados, em junho deste ano.

Tive muitas pessoas ao meu lado cuidando da minha saúde que fizeram toda a diferença. Eles me ensinaram o verdadeiro significado de humanização

O obstáculo da vez eram os 5 km na prova de corrida, os 400m de nado e os 32 km de pedalada. No peito, trouxe não só as medalhas e o título de 1ª Transplantada Cardíaca Brasileira a participar deste tipo de competição, mas o coração ainda mais cheio de felicidade e uma certeza: a alegria de estar viva e muito ativa. Sua história é tão inspiradora que foi tema de discussão em vários programas e reportagens de TV, tudo registrado em um diário virtual em seu blog (soudoador.org), que busca incentivar a doação de órgãos e ajudar mais de 40 mil pessoas que esperam por um transplante no Brasil. “Se estou viva, devo isso ao gesto de amor de alguém. Gesto de amor que, agora, bate forte nesse coração de atleta”, comemora.

Serviço de Reabilitação Cardiopulmonar

Serviço de Reabilitação Pulmonar

Um estudo conduzido pelo cardiologista Dr. Carlos Hossri registrou um aumento de 20% a 30% na capacidade funcional e aeróbica de pacientes transplantados, além de uma taxa de sobrevida de 77%.