Avanços da Neurologia

Vacina contra tumor cerebral e eletrodo no combate à dor crônica são alguns dos novos recursos em desenvolvimento no HCor para tratar doenças do sistema nervoso um tumor.

Avanços da Neurologia

Os tumores cerebrais estão no grupo de cânceres mais agressivos e as terapias tradicionais de combate, a exemplo de quimioterapia e radioterapia, são insuficientes para se deter o avanço da doença, além de comprometer a qualidade de vida dos pacientes. Somente em 30% a 40% dos casos as pessoas conseguem voltar ao trabalho, devido aos efeitos colaterais dos medicamentos e dos sintomas da doença, que incluem dores de cabeça, convulsões, fraqueza motora de um lado do corpo e transtornos de memória, entre outros. Tentar combater esse problema com uma simples injeção parecia um desafio altamente improvável, mas uma nova pesquisa comandada pelo neurocirurgião do HCor, Prof. Dr. Guilherme Lepski, aponta que a técnica tem um resultado promissor.

Desenvolvida em parceria com o departamento de imunologia da USP, a vacina visa combater tumores malignos cerebrais, em especial o glioblastoma, tipo de câncer que nasce das células da “glia” e responde por 2% dos casos diagnosticados de cânceres de adultos. Se os novos testes do estudo confirmarem o êxito deste recurso, é possível que os pacientes possam ter acesso ao medicamento num futuro próximo. “Estamos muito animados e o trabalho nos parece extremamente promissor, avançando em um campo no qual a medicina sempre falhou”, afirma Lepski. “A vacina não provoca o desconforto dos tratamentos convencionais e tem potencial para aumentar muito as taxas de sobrevida.”

A inspiração surgiu a partir de estudos como os realizados pela dupla James P. Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão, agraciada em 2018 com Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta de como o sistema imunológico do corpo pode ser aproveitado para atacar um tumor. A vacina celular idealizada e em teste pelos pesquisadores brasileiros baseia-se na célula dendrítica, que constitui uma célula inteligente do sistema imunológico, responsável por “apresentar” ao sistema de defesa do corpo tudo aquilo que lhe seja estranho, como por exemplo um tumor, explica o Dr. Lepski. Essa vacina tem demonstrado potencial para estimular os mecanismos de defesa do organismo, “ensinando-os” a frear o avanço do tumor.A vantagem deste estudo do HCor é que o medicamento pode ser injetado na pele, como uma vacina BCG (contra a tuberculose). Ou seja, o tratamento é realizado dentro de um consultório, com injeções mensais por um período de 2 a 4 meses.

A Brain Suite (sala híbrida de neurologia) conta com suporte de equipamentos de diagnóstico por imagem de última geração que permitem análise em tempo real”

Uma paciente baiana de 50 anos foi a primeira a testar a terapia. Na época, ela recebia apenas cuidados paliativos para amenizar o sofrimento, pois a doença incurável se encontrava em sua fase final. Com o uso da vacina viveu mais 3,5 anos, contrariando todos os prognósticos. Dois outros pacientes estão recebendo no momento o mesmo tratamento. A equipe do HCor procura por outros 18 voluntários para aumentar a mostra da pesquisa.

Eletrodo no combate à dor

Outro avanço da área de neurologia do HCor é uma nova terapia para tratar dor crônica. Aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a técnica denominada estimulação ganglionar consiste em implantar um eletrodo de 1 milímetro de diâmetro no organismo. O dispositivo fica encarregado de produzir uma corrente elétrica transmitida para contatos elétricos sobre os gânglios por onde chegam as raízes nervosas. Esse sinal é levado em seguida para a medula, inibindo o fluxo de informações dolorosas. “Na dor de origem neurológica (dor neuropática), uma lesão na via sensitiva acarreta fluxo contínuo de impulsos nervosos ao cérebro, como se estivessem sinalizando ao corpo um alerta de dor. Essa terapia tem o poder de frear esses impulsos patológicos (doentios) ao sistema nervoso”, explica o Dr. Lepski.

O neurocirurgião do HCor iniciou o estudo na Alemanha, em 2014, e foram realizados testes com 62 pacientes durante três anos. O implante do eletrodo é feito por meio de uma agulha, em uma operação realizada em até uma hora. O paciente recebe alta no dia seguinte. “A terapia resolve o problema da dor crônica de pessoas que não respondem aos tratamentos convencionais”, explica Dr. Lepski.

Eletrodo no combate à dor

Esses trabalhos representam bons exemplos do estágio atual de excelência e de inovação em neurologia do HCor. O serviço vem experimentando uma expansão constante, com reconhecimento científico dentro e fora do Brasil. Em consequência da ampliação de equipes altamente capacitadas e do investimento realizado nos últimos anos, o hospital está prestes a se tornar o primeiro do país a ser avaliado para receber a Acreditação pela IQG (uma certificação internacional de excelência para o serviço de neurocirurgia).

A expertise em cardiologia, especialidade que deu origem à instituição, impulsionou o desenvolvimento das terapias para doenças vasculares cerebrais no HCor. “Herdamos uma ótima infraestrutura do serviço de cardiologia e radiologia intervencionista, o que nos ajudou a atingir rapidamente um protocolo de atendimento de primeiro mundo”, diz o Dr. Eli Faria Evaristo, neurologista clínico do HCor. “Há um certo paralelismo entre as duas áreas”, explica Dr. Evaristo. O processo inflamatório nos vasos sanguíneos, desencadeado pela hipertensão arterial, tabagismo e acúmulo de colesterol, entre outras causas, aumenta os riscos de infarto e também de AVC, assim como as próprias doenças cardíacas são fatores de risco para AVC. “Por isso houve um movimento de integração no HCor entre as equipes de cardiologia, neurologia, radiologia e radiologia intervencionista, resultando na criação de protocolos de emergência e em rotinas de reuniões periódicas, entre outras ações”, completa o neurologista.

Brain Suite

Um dos principais diferenciais do hospital em tratamentos neurológicos de alta complexidade são as chamadas salas híbridas. A Brain Suite foi concebida especialmente para a área de neuro. Ali, a equipe pode realizar uma operação contando com um suporte de equipamentos de diagnóstico por imagem de última geração, em tempo real. Todos os aparelhos ficam acoplados ao centro cirúrgico, no mesmo ambiente, garantindo maior agilidade nos procedimentos. “Durante retirada de tumores complexos, o cirurgião pode visualizar as imagens cerebrais e monitorizar algumas funções durante o procedimento cirúrgico, ampliando a margem de segurança”, explica o Dr. Lepski.

“Assim que termina a intervenção sobre um câncer, por exemplo, o paciente pode ser examinado na mesma hora. Se necessário, volta ao campo operatório para que o tumor seja completamente estirpado”, explica o Dr. José Marcus Rotta, neurocirurgião do HCor.

A vacina não provoca o desconforto dos tratamentos convencionais e tem potencial para aumentar muito as taxas de sobrevida”

A estrutura híbrida resultou também em um grande avanço em termos de precisão. Ela tornou possível a eliminação de tumores que eram considerados inacessíveis e auxiliou os neurocirurgiões a agir sobre a doença preservando as áreas das funções cognitivas. “Com isso, reduzimos significativamente as chances de algum déficit pós-operatório”, afirma Dr. Rotta.

Como manter a mente ativa

Eletrodo no combate à dor

Com o processo de envelhecimento da população brasileira, as necessidades de tratamentos neurológicos são cada vez maiores. De acordo com pesquisas científicas, a partir dos 55 anos de idade dobra a chance de incidência de um AVC a cada década de vida. Em países desenvolvidos, o infarto é a principal causa de morte e o AVC ocupa o terceiro lugar nesse ranking. Uma das melhores formas de prevenir as lesões em artérias cerebrais é redobrar o controle dos fatores de risco. Quanto mais cedo possível uma pessoa fizer esse controle, melhor para sua saúde no futuro. “Pressão alta, diabetes, sedentarismo e tabagismo fazem parte dessa lista”, enumera o Dr. Mauro Atra, neurologista do HCor. No caso da pressão alta, por exemplo, o controle da doença teria capacidade para reduzir pela metade a incidência de AVC, de acordo com estudos médicos. O controle dos fatores de risco ajuda no envelhecimento mental saudável, sobretudo se o cérebro for constantemente exercitado. “Leitura, palavras cruzadas, games e jogos de cálculos ajudam a melhorar a atenção e, por consequência, a memória”, exemplifica Dr. Atra.

Leitura, palavras cruzadas, games e jogos de cálculos ajudam a melhorar a atenção e, por consequência, a memória

No caso das doenças degenerativas, como Alzheimer, o diagnóstico precoce representa a principal arma para a eficácia dos tratamentos destinados a retardar os efeitos dos problemas e garantir uma melhor qualidade de vida ao paciente. Medicamentos e exercícios específicos para reabilitação neuropsicológica fazem parte hoje do arsenal científico disponível no HCor para melhorar o dia a dia desses pacientes.

Certificação internacional de qualidade em neurocirurgia

Hospital será a primeira instituição do país a ser avaliada para receber o certificado internacional de qualidade da IQG nesta especialidade

Este ano o HCor deve entrar para a relação de centros médicos formalmente reconhecidos no mundo pelo mais alto padrão de excelência nos tratamentos em neurologia. A instituição vem sendo analisada pela IQG que avalia se o serviço preenche diversos requisitos gerenciais e médicos nessa área. “Passamos pelas duas primeiras etapas dessa avaliação e aguardamos uma visita final, que deve ocorrer no primeiro semestre”, afirma o Prof. Dr. Guilherme Lepski, neurocirurgião do HCor. A última etapa deve fechar o ciclo da auditoria, ocorrendo a aprovação final, o hospital será o primeiro do país a receber esse importante Certificado de Acreditação. “Será uma estrela a mais para valorizar o nosso serviço”, comemora Dr. Lepski.