HCor e USP fazem parceria inédita para tratamento de TOC com radiocirurgia

Projeto experimental desenvolvido com o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP utiliza abordagem inovadora para tratar casos severos de Transtorno Obsessivo Compulsivo a partir da utilização do avançado equipamento de Gamma Knife

Tratamento de TOC com Radiocirurgia

Reconhecido mundialmente na área de cardiologia, o HCor tem dado passos importantes para tornar-se referência também na área de Neurociências. Um bom exemplo está em uma iniciativa inédita no país realizada em parceria com o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP), cujo objetivo é viabilizar o tratamento de casos severos de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) – veja o quadro – por meio da utilização de um equipamento de última geração presente no hospital: o Gamma Knife. “Esse aparelho representa o que há de mais avançado na área de radiocirurgia no mundo. Além disso, o modelo disponível no HCor é o mais moderno do mercado. Esse fator, aliado à vantagem de que o hospital também dispõe de neurocirurgiões, radiologistas e técnicos bastante experientes para operá-lo, faz com que as chances de realizarmos procedimentos cada vez mais precisos e eficientes sejam ainda maiores”, diz um dos coordenares do projeto, Dr. Eurípedes Constantino Miguel, psiquiatra, professor e chefe suplente do Departamento de Psiquiatria da FM/USP. Criado para executar procedimentos radiocirúrgicos neurológicos de alta complexidade, sem demandar qualquer tipo de incisão ou abertura na caixa craniana dos pacientes, o Gamma Knife elimina tumores malígnos e benígnos, entre outras lesões cerebrais, ao emitir um tipo de radiação conhecida como raios gama. “Não há cortes ou sangramentos. Apenas uma única aplicação de raios gama extremamente precisa e focalizada no ponto a ser tratado. Em função dessas características, o Gamma Knife proporciona cirurgias ambulatoriais mais seguras, sem necessidade de longos períodos de internação e que demandam menos tempo de recuperação. Tanto que o paciente costuma retornar às suas atividades cotidianas já no dia seguinte ao procedimento”, explica um dos neurocirurgiões do HCor envolvidos na parceria do hospital com a USP, Dr. Antônio De Salles.

Embora o TOC seja classificado como um transtorno psiquiátrico e não neurológico, como é o caso de tumores e lesões cerebrais, o tratamento que a doença recebe por meio da utilização do Gamma Knife no HCor segue os mesmos princípios dos procedimentos normalmente executados com o equipamento, até então, no hospital. Segundo os estudos conduzidos na USP pela equipe do Dr. Eurípedes, várias evidências científicas apontam que as manifestações clínicas do TOC decorrem do funcionamento anormal de redes e circuitos neuronais específicos dentro do cérebro. “Ao eliminarmos certos pontos dentro destas regiões, alvejando-os com raios gama, temos a possibilidade de “desligá-los” e fazer com que os sintomas da doença sejam atenuados de forma significativa”, explica o Dr. De Salles. “Mesmo assim, trata-se de algo bastante inovador, já que oferece uma abordagem bastante diferenciada em relação às terapias farmacológicas e comportamentais comumente empregadas nos casos de TOC”, acrescenta o neurocirurgião.

Realizado ainda em caráter experimental, o tratamento de TOC por meio do Gamma Knife foi aplicado em quatro pacientes dentro do HCor, até o momento, como um estudo científico do Instituto de Pesquisa (IP) do HCor em parceria com o Departamento de Psiquiatria da FM/USP. Segundo o rádio-oncologista do hospital, Dr. João Victor Salvajoli, que também participa da iniciativa, o método pode gerar grandes benefícios aos pacientes. “De qualquer forma, temos observado que essa alternativa de tratamento pode realmente apresentar resultados bastante relevantes e contribuir significativamente com a qualidade de vida dos portadores de TOC”, conclui o radio-oncologista do HCor.

O que é TOC

Transtorno Obsessivo Compulsivo

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o chamado Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) afeta cerca de 3% da população mundial e é o quarto diagnóstico mais frequente da psiquiatria atualmente. Os sintomas são tipicamente caracterizados pela ocorrência de pensamentos ou ideias obsessivas que provocam extremo desconforto e ansiedade, assim que surgem na consciência do indivíduo. Em meio a uma crise, portadores de TOC se veem forçados a tomar medidas exageradas para alcançar alívio. Ou seja, pessoas assoladas pela impressão de que estão contaminadas, por exemplo, tomam atitudes radicais como passar horas lavando as mãos ou esfregando o corpo durante o banho, até que se machuquem, caso não consigam parar. Também existem obsessões relacionadas à dúvida. Nestes casos, o indivíduo costuma verificar se trancou portas e janelas repetidamente, antes de sair de casa, ou desenvolve, por exemplo, uma necessidade incontrolável pela organização de objetos que, de maneira incondicional, precisam sempre estar alinhados em perfeita simetria. “Pacientes com TOC sofrem muito porque sabem que estes comportamentos não fazem sentido. Mesmo assim, são obrigados a criar verdadeiros rituais para poder conviver com seu problema. Por isso, estudos que possam fornecer novos métodos de tratamento para o TOC são fundamentais, já que, segundo a OMS, ele estará entre as dez causas mais importantes de incapacitação por doença, até 2020”, afirma o Dr. De Salles.