Os avanços da neurociência


 

Estudos de neurociência
Dr. Antonio De Salles coordena pesquisas no HCor Neuro

No mundo todo, os estudos e pesquisas publicados sobre neurologia apontam algum tipo de avanço nos tratamentos ou revelam possibilidades ainda desconhecidas. Informações sobre as doenças do cérebro, que afetam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, fazendo 6,8 milhões de vítimas fatais, conforme levantamento da OMS – Organização Mundial da Saúde, aos poucos vão sendo desvendadas.

É sabido que o mal de Alzheimer (uma das principais doenças degenerativas) e outros tipos debilitantes que causam demência atingem 24,3 milhões de pessoas. E esse quadro pode dobrar a cada 20 anos, principalmente nos países em desenvolvimento. Neste cenário, que envolve uma das áreas mais complexas do corpo humano, uma equipe de especialistas acaba de ser formada para fundar o Centro de Neurociência do Hospital do Coração, o HCor Neuro. Coordenado pelo Dr. Antonio De Salles e tendo a Dra. Alessandra Gorgulho como vice-coordenadora, o centro terá uma equipe de quatro neurocirurgiões e um neurologista dedicados ao tratamento de tumores cerebrais, doenças vasculares cerebrais, epilepsia refratária, doenças da coluna vertebral, doença de Parkinson, tremores e outras doenças degenerativas do sistema nervoso central e periférico.

Após 30 anos fora do país o Dr. De Salles retorna com o know how de ter atuado em instituições como Harvard University, Medical College of Virginia, UCLA-University of California at Los Angeles, nos Estados Unidos e Umea University, na Suécia. Recentemente, ganhou o prêmio de Pioneiro em Medicina, no Canadá, por duas técnicas novas desenvolvidas por ele e seu grupo de pesquisas. Uma na implantação do marca-passo cerebral para pacientes com estresse pós-traumático. A outra técnica consiste no desenvolvimento de um método totalmente não invasivo, aplicado à radiocirurgia contra metástases cerebrais e outros tumores malignos (câncer cerebral) e benignos do cérebro e da coluna.

HCor Saúde – Quais os diferenciais do Centro de Neurociência do HCor?
Antonio De Salles – Teremos os serviços de neurologia, neurocirurgia e também faremos muitas pesquisas em termos de neurociência, que estamos desenvolvendo junto ao Ministério da Educação com a Filantropia do HCor. Temos a possibilidade de usar não só a melhor tecnologia possível como também a melhor metodologia científica, junto ao IEP-HCor. Teremos os melhores equipamentos para neurocirurgia existentes no mundo como a Gamma Knife, que iniciou a qualidade que existe hoje em dia em radiocirurgia e é o que existe de melhor nesta área, dedicada exclusivamente ao cérebro, e também um aparelho chamado Access Linak, dedicado ao tratamento de tumores na coluna e medula que também pode ser usado em outras especialidades como a radiocirurgia de pulmão, fígado, pâncreas, próstata e cérebro.

Isso é o que existe de mais moderno no tratamento de doenças neurológicas complexas como lesões vasculares, má formação arteriovenosas, tumores da pituitária, neurinomas do acústico, lesões do tronco cerebral, metástases e tumores cerebrais em geral.

A parte de cirurgia contará com duas salas híbridas novas, sendo uma dedicada à cardiologia e outra a neurocirurgia, ortopedia e outras especialidades.

H.S. – As salas híbridas são uma tendência mundial?
A.S. – Sim. É uma tendência ter imagens dentro da sala de cirurgia hoje em dia. Os trabalhos evoluíram principalmente na Alemanha e Estados Unidos. A sala de cirurgia do cérebro foi desenvolvida no nosso serviço da UCLA há aproximadamente 10 anos. Operávamos dentro da sala de ressonância magnética. Ou seja, desenvolvemos o “brain suite” que estará disponível aqui no hospital, colocando o HCor como o único hospital do país a oferecer esse serviço.

A estimulação diária do cérebro faz com que a memória recente, que é a mais prejudicada pelo mal de Alzheimer, não seja perdida.

H.S. – E quais são as principais vantagens?
A.S. – Com uma sala adaptada para ter imagens, com ressonância e tomografia disponíveis, a grande vantagem é que se houver qualquer problema durante a cirurgia não será preciso transportar o paciente para o serviço de radiologia, tudo é feito ali mesmo na sala de cirurgia. A agilidade é fundamental nesses momentos para salvar a vida do paciente. Também as remoções de tumores são mais completas. Muitas vezes alguns tumores não são visualizados completamente na cirurgia. Com essa capacidade de localização mais precisa a cirurgia é muito mais eficaz. Quando a cirurgia termina o paciente é avaliado com uma imagem e só será transportado para a terapia intensiva se tudo estiver controlado.

H.S. – Existe algum estudo em andamento?
A.S. – Sim, dois estudos em conjunto com o Ministério da Educação e a Filantropia do HCor. Um deles é o marca-passo cerebral para obesidade mórbida, indicado para os pacientes que esgotaram as possibilidades de tratamento, inclusive com cirurgia bariátrica, ou àqueles que não querem fazê-la. Encontramos uma área no cérebro que podemos aumentar o metabolismo basal do paciente. É como se fosse um exercício para aumentar o metabolismo e sem restrições na alimentação. O paciente perde peso lenta e continuamente até, por exemplo, regularizar índices de colesterol e glicemia. Como é um neuromodulador é possível ajustar a estimulação para o nível que for necessário: 2, 4, 10, 24 horas por dia. Essa é uma pesquisa trabalhosa e que requer a tecnologia e a estrutura que o HCor nos oferece com todos os trâmites para que seja feita da maneira mais ética e correta possível.

H.S. – Isso mostra que o marca-passo é um importante recurso também na neurologia?
A.S. – Sem dúvida, tanto que é o recurso utilizado em nossa outra pesquisa para o tratamento da depressão com estimulação do nervo trigêmeo. Pegamos somente o ramo que vem para face, que sai debaixo da sobrancelha, e por meio de um eletrodo podemos ligar um marca-passo. A estimulação periódica desse nervo, geralmente durante a noite, dará uma melhora considerável ao quadro de depressão. O estudo piloto foi feito na UCLA pelo nosso grupo, trouxemos para cá o procedimento cirúrgico e vamos comparar com o procedimento não invasivo. O que foi feito foi estimular o nervo com o eletrodo colado na pele e deu resultado. A estimulação do nervo vai ao cérebro nas áreas que fazem com que a pessoa se sinta melhor. Com isso a medicação pode até ser suspensa, mas não pode ser tirada de imediato e sim gradativamente dependendo de cada caso. A depressão é uma das maiores causas de absenteísmo no trabalho.

H.S. – E quais são os projetos para o futuro?
A.S. – Temos várias ideias que gostaríamos de desenvolver no HCor, principalmente porque cérebro e coração trabalham muito juntos. Em todas as emoções o coração recebe um impulso cerebral e passa a bater mais rápido. Existem várias maneiras que podemos ajudar a função cardíaca usando esses reflexos que fazem com que o cérebro influencie o coração. Por exemplo, podemos diminuir a frequência cardíaca estimulando áreas específicas do cérebro. Um paciente com arritmia cardíaca pode ser tratado sem drogas com a estimulação dessas áreas. Essa é uma das razões que resolvemos montar um centro de neurociência dentro de um hospital cardíaco, pois temos muita coisa para desenvolver nesta área. Com a qualidade do centro de pesquisa que já existe no HCor é possível desenvolver novos aparelhos e tratamentos em geral.

H.S. – Sobre as doenças neurológicas, quais podemos destacar e o que vem sendo feito para combatê-las?
A.S. – As doenças degenerativas, como o Alzheimer, progridem rapidamente se a pessoa não exercita o cérebro. As células começam a morrer. O cérebro tem o princípio que o uso não deixa degenerar tão rapidamente, não sabemos ainda se podemos parar uma doença degenerativa do cérebro somente com exercício cerebral, mas sabemos que diminui a progressão por várias razões, uma é que está se trazendo mais irrigação e nutrientes para o cérebro à medida que ele é utilizado. Somos proponentes de uma boa higiene cerebral, que inclui também uma boa alimentação. A dieta mediterrânea que é boa para o coração, por exemplo, também é boa para o cérebro. Comer peixe também.