Unidade Fetal do HCor desenvolve nova técnica para realização de neurocirurgia

Unidade Fetal do HCor desenvolve nova técnica para realização de neurocirurgia

A equipe multidisciplinar responsável pelas cirurgias fetais no HCor é composta por especialistas reconhecidos no Brasil e no mundo

A Unidade Fetal do HCor (Hospital do Coração), referência internacional no tratamento de patologias fetais, desenvolveu uma nova técnica para a correção da mielomeningocele – defeito da coluna do feto, que deixa exposta a medula espinhal e as raízes nervosas, levando a inúmeras alterações neurológicas.

Idealizada pelo coordenador do grupo de cirurgias fetais do HCor, Dr. Fábio Peralta, e pelo Dr. Antônio de Salles, responsável pelo Departamento de Neurociência e Dr. Rafael Botelho, responsável pela Obstetrícia, o novo procedimento é feito por meio de uma pequena incisão de 2,5 cm no útero, através da qual os neurocirurgiões corrigem a mielomeningocele fetal com o auxílio de microscópios de alta resolução. A incisão mínima no útero resulta em maior segurança para a gestante durante e após a cirurgia. As complicações são mínimas e raras e mais de 40 fetos já foram beneficiados por este procedimento, com excelentes resultados pós-natais.

A correção intra-útero da mielomeningocele já era realizada no país por meio de técnicas convencionais, ou seja, através de incisões de 6 a 10 cm no útero. Este tipo de acesso ao feto está associado a significativa taxa de complicações maternas e fetais, de rotura prematura de membranas, de prematuridade, além de deixar a gestante com grande cicatriz no corpo do útero (o que pode comprometer o futuro reprodutor da paciente).

A nova técnica, desenvolvida pela equipe do HCor, tem como finalidade principal reduzir a agressão cirúrgica ao útero materno, minimizando assim as complicações operatórias e pós-operatórias. Esta técnica permite, também, que a correção da mielomeningocele seja feita em fases mais precoces da gravidez (19 ou 20 semanas), quando o útero é ainda muito pequeno para ser submetido a incisões maiores – o que minimiza a exposição da medula e raízes nervosas do feto ao líquido amniótico. Este líquido lesa nervos expostos na mielomeningocele, que devem controlar os esfíncteres da bexiga, do ânus e a musculatura dos membros inferiores.

“Na cirurgia que realizamos, o útero é exposto através de uma incisão no abdômen da gestante, semelhante à da cesariana (cirurgia a céu aberto), da mesma forma que é feito na cirurgia intra-útero convencional para mielomeningocele. No entanto, operamos o feto por uma abertura no útero de 2,5 cm, o que praticamente elimina o risco de rotura uterina após a cirurgia e expõe a paciente e o feto a riscos mínimos e controláveis durante e após o procedimento”, esclarece o neurocirurgião do HCor, Dr. Antonio De Salles.

Os demais tratamentos fetais (exceto a mielomeningocele) são realizados por meio de procedimentos chamados minimamente invasivos (com o uso da endoscopia, de agulhas, cateteres e drenos, guiados por ultrassonografia). A equipe de cirurgia fetal do HCor disponibiliza todos os tipos de tratamento fetal hoje consagrados pela medicina baseada em evidências. Para a gestante, essas intervenções são consideradas muito seguras, sendo raras as complicações, como sangramentos ou infecções. Todo esse cuidado é justificado diante da incidência de bebês portadores de malformações congênitas, que chega a 2% de todos os nascidos vivos.

De acordo com o cirurgião fetal do HCor (Hospital do Coração), Dr. Fábio Peralta, dos procedimentos minimamente invasivos, o mais frequente é a cauterização de vasos placentários com laser por via endoscópica, em casos de transfusão feto-fetal (desequilíbrio entre os fluxos de sangue dos gêmeos que compartilham a mesma placenta). Esta técnica foi modificada ao longo dos anos, e, atualmente, a que se usa no mundo todo foi inicialmente criada pelo Dr. Peralta. Nos casos graves, se a cirurgia não for feita, a possibilidade de óbito de pelo menos um dos gêmeos é de aproximadamente 95%. Com o tratamento, há 75% de chance de que pelo menos um dos bebês sobreviva.

Outra cirurgia comumente realizada no HCor é a de oclusão traqueal fetal, em casos de hérnia diafragmática (quando o diafragma, músculo que separa o abdômen do tórax, não se fecha adequadamente, permitindo que os órgãos abdominais subam para o tórax e comprometam o desenvolvimento dos pulmões). “Nesses casos, a cirurgia fetal contribui para o aumento do tamanho dos pulmões do feto, melhorando sua chance de sobreviver após o nascimento. Há, no entanto, a necessidade de corrigir definitivamente o defeito do diafragma após o parto”, enfatiza Dr. Peralta.

Unidade Fetal do HCor: referência internacional em cirurgia fetal (a céu aberto e minimamente invasiva), a Unidade Fetal do HCor tornou-se o mais importante centro de tratamento de doenças fetais do Brasil. Para salvar vidas, já foram realizadas, desde a sua inauguração em 2007, mais de 300 cirurgias em fetos com malformações neurológicas, cardíacas, pulmonares, urológicas e outras.

Condições mais frequentemente tratadas pela equipe de cirurgia fetal do HCor:

Mielomeningocele: quando a coluna do feto não se fecha, deixando a medula espinhal exposta. Cirurgia a céu aberto, com mínima incisão no útero para a correção do defeito da coluna fetal.

Síndrome de Transfusão Feto-Fetal (STFF): ocorre somente em gestações gemelares em que os fetos compartilham a mesma placenta. Há um desequilíbrio entre as circulações sanguíneas dos gêmeos através de comunicações vasculares.

“Neste caso, a intervenção cirúrgica é feita por via endoscópica, com uso do laser para a cauterização dos vasos e interrupção da circulação anormal entre os fetos. Em casos de STFF grave, quando o tratamento não é realizado, há óbito de pelo menos um feto em 95% dos casos. Com o tratamento de ablação com laser dos vasos placentários por via endoscópica, a sobrevida de pelo menos um dos gêmeos é de 80%”, explica o Dr. Fábio Peralta, cirurgião fetal do HCor, especialista neste tipo de procedimento.

Hérnia Diafragmática Congênita (HDC): é um defeito no diafragma (músculo envolvido nos movimentos respiratórios, que separa o tórax do abdômen), em que os órgãos abdominais, como fígado, estômago e intestino sobem para a região torácica e ocupam o local onde deveriam ficar os pulmões. Em casos muito graves, quando há herniação do fígado para o tórax fetal, a chance de sobrevida pós-natal dos afetados é menor do que 10%.

“A intervenção nesses casos é feita ocluindo-se temporariamente a traquéia do feto com um pequeno balão de silicone, o que faz com que os pulmões se expandam, melhorando a chance de sobrevida do neonato. A oclusão traqueal fetal é realizada somente nos casos extremamente graves (com herniação hepática), sendo a sobrevida nos casos em que a oclusão traqueal foi realizada, de aproximadamente 50%.

Cardiopatias fetais: alguns fetos com alterações estruturais cardíacas específicas (estenose aórtica crítica, estenose pulmonar crítica e outras) podem se beneficiar de intervenções cardíacas no pré-natal. Estas intervenções têm por finalidade principal impedir a piora do desempenho dos ventrículos cardíacos fetais, evitando a necessidade de cirurgias mais complexas após o nascimento. “A desobstrução da valva pode ser feita com um cateter que, guiado por ultrassom, depois do nascimento, é feita a correção definitiva”, finaliza Dr. Peralta.