Avanços das cirurgias cardíacas e torácicas


 

Prof. Dr. Fabio Jatene

Desde que começaram a se destacar, na primeira metade do século passado, as cirurgias cardíaca e torácica se alternaram em importância ao longo de décadas. Hoje, com a tecnologia empregada, tanto nos métodos diagnósticos quanto nos procedimentos terapêuticos, ambas se consolidaram como opções eficazes no tratamento das diversas doenças que atingem essas áreas do corpo humano. Para entender um pouco mais sobre as duas especialidades, a HCor Saúde conversou com um dos principais cirurgiões do país e gabaritado para atuar nas duas áreas.

O Prof. Dr. Fabio Jatene explicou de que maneira as áreas se desenvolveram no país, falou sobre o cenário atual e as perspectivas. O cirurgião contou, também, um pouco de sua atuação nos mais de 30 anos dedicados às especialidades.

Na cirurgia cardíaca avançamos muito no HCor. E hoje contamos com tudo que há de mais moderno no segmento com implantes de dispositivos de assistência circulatória, cirurgia minimamente invasiva e transplantes

Prof. Dr. Fabio Jatene

 

HCor Saúde – O senhor é especializado tanto na cirurgia cardíaca quanto na torácica. Quais as características de cada uma delas?

Prof. Dr. Fabio Jatene – São duas especialidades diferentes, mas que se inter-relacionam pela proximidade dos órgãos, das estruturas e regiões do corpo em que se realizam as operações. Convencionou-se que cirurgia cardiovascular aborda as doenças cardiovasculares, do coração e dos grandes vasos, incluindo a aorta. A torácica aborda as doenças do pulmão, da parede costal e do mediastino, englobando traqueia, gânglios, esôfago, brônquios, entre outros. Existem profissionais que atuam nas duas especialidades, como é meu caso. Outros colegas só fazem cirurgia cardíaca e outros, só torácica. Essa associação não é muito comum no Brasil, alguns cirurgiões fazem as duas, mas nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, é muito frequente. Talvez pelas características próprias dos países ou mesmo de como as especialidades se desenvolveram em cada região.
H. S. – De que maneira as especialidades se desenvolveram no Brasil?

F. J. – Começaram a se desenvolver entre as décadas de 30 e 50. A cirurgia torácica se destacou mais nesse momento, porque para operar o coração havia muita dificuldade, pois as operações no coração poderiam provocar parada cardíaca, arritmia, sangramento, então, basicamente o que se fazia era tratar os problemas do pulmão e do mediastino. O cirurgião torácico era muito ativo nesse período. Além das doenças de pulmão, como o câncer, a tuberculose era o grande problema da época. Como não existia medicação, levava-se o paciente para cidades de maior altitude e eram feitas manobras operatórias para tentar reduzir o tamanho das cavernas onde ficavam o bacilo da tuberculose. Com o advento do antibiótico, a tuberculose passou a ser controlada e logo depois foi desenvolvida a máquina de coração-pulmão artificial.
H. S. – Como essa descoberta auxiliou no desenvolvimento da cirurgia cardíaca?

F. J. – Com a conexão do paciente à máquina, por meio de tubos, parava-se o coração e assim era possível operá-lo. A partir daí a cirurgia cardíaca começou a se desenvolver, pois existia uma grande quantidade de indivíduos que já tinham diagnóstico e precisavam ser operados. Boa parte dos cirurgiões torácicos passou a fazer cirurgias cardíacas, pois as incisões eram parecidas, as estruturas eram próximas e a região era conhecida. Os professores Euryclides Zerbini e Adib Jatene, por exemplo, operavam muito pulmão e migraram para a cirurgia cardíaca. Alguns permaneceram na área e outros seguiram fazendo as duas. Isso ocorreu nas décadas de 60 e 70.
H. S. – E a utilização das pontes de safena e mamária?

F. J. – Nessa mesma época tivemos a introdução das válvulas artificiais e das 0 e mamária, a chamada revascularização do miocárdio, que possibilitou o tratamento de uma quantidade extraordinária de pacientes. A tuberculose, por sua vez, passou a ser tratada com antibióticos, o que promoveu um período de declínio da cirurgia torácica e ascensão da cardíaca.
H. S. – O que colocou a cirurgia torácica novamente em evidência?

F. J. – Nos anos 80, o avanço dos métodos diagnósticos permitiu identificar precocemente problemas como o câncer de pulmão e outras doenças torácicas. Com isso, a cirurgia torácica voltou a ocupar outro patamar. Além disso, foi introduzido o conceito da toracoscopia, menos invasiva e de grande eficiência para procedimentos dentro da cavidade das pleuras, onde estão os pulmões.
H. S. – Quais as novas tendências para as especialidades?

F. J. – Os procedimentos menos invasivos. A cirurgia torácica cresceu muito e a cardíaca continuou forte com o surgimento de métodos de tratamento hemodinâmicos. Começamos a ter situações em que o tratamento pode ser feito de várias maneiras. O foco é conjugar a melhor forma de tratamento para cada situação. Existem guias de conduta baseados na condição do paciente, gravidade da doença, idade,  características da lesão, entre outros. Hoje temos na cardiologia como um todo a possibilidade de realizar um determinado tratamento com medicamentos, hemodinâmica, cirurgia, e até mesmo com procedimentos híbridos, dependendo de cada caso.
H. S. – Como é definido o melhor tratamento?

F. J. – Nos centros acadêmicos, costumamos discutir os casos em reuniões clínicas com cirurgião, clínico, hemodinamicista, ou seja, a equipe multidisciplinar. Esse conceito avança cada vez mais nos centros não acadêmicos. A ideia de poder realizar procedimentos com uma discussão e entendimento prévio dos casos passou a ser cada vez mais observada. O grupo chamado de “heart team” (time do coração) discute a melhor conduta para cada caso, isso baseado não apenas na opinião e experiência das pessoas, mas também em informações de trabalhos da literatura que estudaram milhares de pacientes. Então, a discussão hoje é suportada por opinião, experiência e dados baseados em evidências científicas.
H. S. – Que tipo de cirurgia o senhor realiza no HCor?

F. J. – Atuo nas duas especialidades que me dediquei: cardíaca e torácica. Opero pulmão no HCor desde os anos 80, ininterruptamente. Na cirurgia cardíaca avançamos muito no hospital. E hoje contamos com tudo que há de mais moderno no segmento, com implantes de dispositivos de assistência circulatória, cirurgia minimamente invasiva e transplantes. Nosso grupo já fez alguns transplantes de coração e talvez, no futuro, poderemos fazer também de pulmão, uma vez que temos todos os métodos diagnósticos disponíveis, grupos clínico e cirúrgico e realizamos cirurgias toracoscópicas. Enfim, o HCor conseguiu ao longo dos anos seguir avançando na área cardiovascular, mas as outras especialidades contam com o que existe de mais moderno hoje em dia.
H. S. – Qual a importância das outras especialidades?

F. J. – O carro chefe do HCor é coração, mas sempre teve outras especialidades, pois são importantes para auxiliar eventualmente em complicações que ocorrem na cirurgia. Por exemplo, um paciente operou o coração e teve problema abdominal, então precisa de uma cirurgia gastroenterológica. O mesmo se aplica para a cirurgia torácica. Um problema na pleura ou problema de drenagem precisa de uma intervenção especializada. O HCor atua em várias áreas cirúrgicas com equipes muito competentes e ótimos resultados.
H. S. – A tecnologia pode tornar a cirurgia obsoleta?

F. J. – De forma alguma. Existem algumas estratégias que são permanentes. Os transplantes hoje têm uma terapêutica bem definida. Talvez a melhor para casos de insuficiência cardíaca avançada. Outra possibilidade é a cirurgia de revascularização, existem situações em que o stent não resolve com eficiência, seja por problemas anatômicos, artérias finas ou calcificadas. Nestes casos, a cirurgia de revascularização tem um papel fundamental e sempre terá seu espaço.

Outro caso é a doença das válvulas cardíacas. Existem iniciativas que estão sendo bem-sucedidas na aplicação de válvulas cardíacas sem necessidade de cirurgia, mas ainda não se prestam para todas as situações. O mesmo podemos falar das doenças congênitas. Já é possível tratar algumas doenças com método de cardiologia hemodinâmica, mas na prática não se aplicam a todos os casos. Então, tenho certeza que a cirurgia cardíaca tem ainda um espaço muito grande.