A evolução da cirurgia de aorta


 

Cirurgia de aorta

A cirurgia atual tem de respeitar a integridade do doente e todo esforço é feito para isso. É possível ter sucesso fazendo bem feito com menos agressão

O avanço tecnológico ocorrido nas duas últimas décadas colocou diversos segmentos em patamares inimagináveis. A cardiologia é um deles. Muitas inovações e contribuições aconteceram para tornar as cirurgias menos invasivas, mais precisas e seguras.

Um dos principais nomes dessa geração é o Prof. Dr. Enio Buffolo, cardiologista responsável pelo desenvolvimento da técnica de revascularização do coração sem circulação extracorpórea, que lhe rendeu homenagens em todo o mundo, inclusive a inscrição de seu nome no monumento a Hipócrates, na Grécia, e pelo aperfeiçoamento no tratamento endovascular das dilatações da aorta, em meados dos anos 90. Até hoje já são mais de 1,5 mil procedimentos desse tipo realizados.

Ambas as descobertas são reconhecidas mundialmente e representam enormes contribuições para a medicina. De acordo com o cirurgião, a descoberta da primeira técnica foi a porta para o desenvolvimento da segunda.

Dr. Enio Buffolo concedeu entrevista à HCor Saúde para falar um pouco dessa trajetória de sucesso e das importantes contribuições na área médica, além da criação do Centro de Tratamento de Doenças da Aorta, no HCor.
HCor Saúde – De que maneira o aprimoramento das técnicas cirúrgicas possibilitou os tratamentos das dilatações da aorta, os aneurismas?

Dr. Enio Buffolo – O pioneiro nesse tipo de tratamento é o cirurgião argentino Dr. Juan Parodi. Ele descreveu pela primeira vez a técnica para aneurismas da aorta abdominal. Nossa equipe detectou que era possível realizar esse tipo de tratamento também na aorta torácica. A partir daí passamos a implantar com sucesso Stents, que são pequenos tubos flexíveis, nos aneurismas da aorta torácica. Com isso propusemos pela primeira vez na literatura científica nacional e internacional o tratamento das dissecções de aorta, que são complicações dos aneurismas, por meio do tratamento endovascular que é muito menos agressivo.
H.S. – Como é feito o procedimento?

E.B. – O cateter é introduzido por um pequeno corte na virilha e alcança o local desejado onde o stent é liberado, se expande e veda o aneurisma. Esse tubo é feito de um material especial e flexível chamado nitinol. Pode ser comprimido dentro de um cateter muito fino e quando removido retorna ao formato original. Isso é conhecido na literatura médica e na engenharia como “smart materials” (materiais inteligentes).
H.S. – Qual foi o impacto dessa descoberta?

E.B. – Com essa técnica é possível tratar grandes aneurismas e dissecções de aorta, que são complicações dos aneurismas, de uma maneira menos invasiva. O paciente fica um dia na UTI e três dias depois tem alta. Isso foi realmente uma revolução.

Quando começamos a dominar essa técnica, surgiram os tratamentos criativos, chamados de híbridos, que combinam um procedimento endovascular minimamente invasivo com uma pequena toracotomia, uma abertura no tórax, dispensando cirurgia extracorpórea. Isso foi o ponto de partida para o surgimento das salas híbridas, que são locais totalmente monitorados onde se pode fazer um procedimento hemodinâmico e uma cirurgia ao mesmo tempo. A sala cirúrgica deixou de ser só bisturi, pinça, máscara, etc. Hoje incorpora alta tecnologia de procedimentos e imagens.
H.S. – Isso também modificou o formato das indicações das cirurgias?

E.B. – Com certeza. Antes pensávamos muito para indicar uma cirurgia, praticamente só em casos terminais. Hoje temos como operar em casos mais iniciais, evitando as complicações da doença, pois o procedimento é mais seguro. Quando se indica um procedimento é preciso comparar o risco com o benefício e este tem que ser melhor que o risco. Nessa linha, nossa equipe adquiriu grande experiência contando mais de 3,3 mil casos, sendo quase 1,5 mil minimamente invasivos por via endovascular.
H.S. – É possível encontrar esse tipo de cirurgia no serviço público?

E.B. – Uma das grandes contribuições dessa técnica foi poder desenvolver as endopróteses no Brasil para favorecer a aplicação. Elas eram importadas dos Estados Unidos e muito caras, o que inviabilizava a utilização num número maior de doentes. Então, desenvolvemos essa prótese aqui no Brasil com a mesma qualidade da norte-americana. O Dr. José Honório Palma, da nossa equipe, liderou esse projeto na Escola Paulista de Medicina em conjunto com a Braile Biomédica, em 1995. Isso baixou muito o custo e hoje esse procedimento está disponível no SUS, o que não acontecia anteriormente. Em termos de benefício social foi uma excelente conquista, pois o procedimento é feito no Brasil inteiro.

Hoje está totalmente disseminado, mas antigamente dávamos cursos de fim de semana para médicos de todo o país.
H.S. – Com toda tecnologia disponível, podemos dizer que é o fim da cirurgia aberta?

E.B. – Não. A maioria dos aneurismas da aorta descendente, que representam um grande trecho, pode ser tratada de forma minimamente invasiva. Existem casos complicados com ramos saindo do aneurisma em que precisamos da cirurgia, que também é indicada para aneurisma da croça da aorta e aorta ascendente, muito próxima ao coração. Nesses casos são feitos os procedimentos híbridos. Ao invés de fazer uma cirurgia aberta muito complexa, pode-se associar o tratamento endovascular com a cirurgia mais simples.

O Centro de Tratamento de Doenças da Aorta tem como grande diferencial a referência e estrutura do HCor, com equipamentos necessários para diagnóstico e planejamento cirúrgico

H.S. – O que o Centro de Tratamento de Doenças da Aorta oferecerá aos pacientes?

E.B. – Centro de Tratamento de Doenças da Aorta HCor visa atender uma demanda crescente. A precisão dos métodos diagnósticos mudou a medicina. Hoje, as angiotomografias são precisas, dando subsídios para saber o momento de operar e qual planejamento deve ser feito. O Centro tem como grande diferencial a referência e estrutura do HCor, com equipamentos necessários para diagnóstico e planejamento cirúrgico. Além disso, temos a sala híbrida com ecocardiograma, hemodinâmica, tomografia, todos acoplados à disposição da equipe multidisciplinar formada por anestesiologista, ecocardiografista e hemodinamicista, que realizará os procedimentos. Não somente o cirurgião, mas um grupo com diferentes habilidades, num local extremamente gabaritado, possibilita procedimentos mais rápidos, seguros e menos invasivos.
H.S. – Como o senhor desenvolveu a técnica da revascularização do coração sem circulação extracorpórea?

E.B. – Começamos em 1981, no HCor, e apresentamos os resultados pela primeira vez em 1982, com os primeiros 40 casos operados. Trata-se de uma técnica para fazer pontes com o coração batendo. Na época ninguém acreditava ser possível, duvidavam dos resultados, pois a coronária é muito fina, tem de 2mm a 3mm, e não se imaginava possível fazer uma costura com o coração batendo. Mas mostramos que era possível fazer e com menos agressão ao paciente. Isso foi a porta da cirurgia mini-invasiva que foi aprimorada com o tempo para minimamente invasiva.

A cirurgia atual tem de respeitar a integridade do doente e todo esforço é feito para isso. É possível ter sucesso fazendo bem feito com menos agressão. Obviamente existem casos específicos que, para não comprometer, por exemplo, a qualidade da sutura, deve se observar a necessidade de fazer o procedimento da maneira convencional.

H.S. – Qual a importância de ter o nome gravado no monumento a Hipócrates, na Grécia?

E.B. – Não há como traduzir em palavras. É uma grande conquista. Foi uma homenagem aos médicos por suas contribuições à medicina. Aconteceu durante o 18º Congresso da Sociedade Mundial dos Cirurgiões Cardiotorácicos na ilha de Kós, na Grécia, 2008. Os médicos com pesquisas de destaque internacional tiveram os nomes grafados nas pedras do monumento a Hipócrates, considerado o pai da medicina. É a realização de qualquer profissional da área médica.